Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho · Chico Xavier
Capítulo 22 de 32
Fim do Primeiro Reinado
1 Um dos traços característicos do povo brasileiro é o seu profundo amor à liberdade. A largueza da terra e o infinito dos horizontes dilataram os sentimentos de emancipação em todas as almas chamadas a viver sob a luz do Cruzeiro. Desde a formação dos primeiros movimentos nativistas, a mentalidade geral do Brasil obedeceu a esse nobre imperativo de independência e, ainda hoje, todas as ações revolucionárias que se verificam no país, lamentavelmente embora, trazem no fundo esse anseio de liberdade como o seu móvel essencial.
2 A atitude de D. Pedro I ordenando a dissolução da Constituinte, em 1824, encontrara funda repercussão no espírito geral.
Se bem ignorasse o que vinha a ser uma constituição boa e justa, o povo a reclamava, dentro do seu conhecimento intuitivo, acerca da transformação dos tempos.
3 O imperador, apesar das suas paixões tumultuárias e das suas fraquezas como homem, possuía notável acuidade, em se tratando de psicologia política. Os estudiosos que viram na sua personalidade somente o amoroso insaciável, muitas vezes não lhe reconhecem o espírito empreendedor na direção da causa pública, inaugurando a era constitucional do Brasil e Portugal, com as suas valorosas iniciativas. É de lamentar os seus transviamentos amorosos e a tragédia da sua vida conjugal, quando a seu lado tinha uma nobre mulher, cujas renúncias e dedicações elevavam-se ao heroísmo supremo; mas, nos instantes em que seu coração se tocava das ideias generosas, criando no seu mundo íntimo o estado receptivo propício às inspirações do Mundo Invisível, as falanges de Ismael aproveitavam o minuto psicológico para auxiliá-lo na tarefa de consolidação da liberdade da pátria do Evangelho. Foi, desse modo, que muitos decretos foram lançados de suas mãos objetivando, inegavelmente, a tranquilidade geral.
4 Como dizíamos, a sua resolução extrema dissolvendo a Assembleia e exilando os Andradas, havia cavado um abismo entre ele e a opinião pública, intransigentemente apaixonada pela emancipação do país. As lutas isoladas multiplicavam-se assustadoramente. No Rio e nas províncias, tudo era um clamor surdo de protestos contra os atos de D. Pedro, que, aliás, não poderia manter outra atitude em face do ambiente confuso do país.
5 A província de Pernambuco onde se fixaram, inicialmente, as balizas dos grandes sentimentos da liberdade e da democracia com a influência de Maurício de Nassau, guardava, mais que nunca, o sentimento de independência e de autonomia. Todas as grandes ideias encontravam, no Recife, o clima apropriado ao seu desenvolvimento e foi justamente aí, que as deliberações de D. Pedro feriram mais fundo.
6 A 24 de julho de 1824 estalam, na terra pernambucana, os primeiros movimentos da Confederação do Equador, que se ramificava por toda a região do norte e vinha proclamar as generosas ideias republicanas. Paes de Andrade coloca-se à frente da ação revolucionária, com o objeto de agir contrariamente ao imperador, a quem se atribuía o propósito de reunir as coroas do Brasil e de Portugal, reintegrando-se o primeiro na vida colonial. Mas o governo central providencia energicamente. Lord Cochrane e Lima e Silva são enviados com urgência para eliminar a insurreição.
7 Em Pernambuco, o Marquês do Recife, com todo o seu prestígio entre os lavradores inicia a defesa do governo imperial e prestigia as tropas enviadas, que sufocam o movimento. Os republicanos são vencidos e presos. Paes de Andrade refugia-se num navio inglês, conseguindo escapar à ação repressiva do Império, mas João Ratcliff e Frei Caneca pagam com a vida o sonho republicano. Executados militarmente, são eles o doloroso escarmento para os companheiros. Ambos iam, porém, associar-se aos trabalhos do Infinito, sob a direção de Ismael, cuja misericórdia alentava as energias da pátria brasileira.
8 Com o desaparecimento da Confederação do Equador, as agitações intestinas não haviam terminado. Os reinóis, espalhados por todos os recantos do país, esperavam um golpe de unificação das duas pátrias, sonhando o regresso à vida colonial em benefício dos seus interesses econômicos. Os brasileiros, todavia, entravam em luta com os portugueses, constituindo esses movimentos uma ameaça constante à paz coletiva, durante vários anos.
9 Por essa época, o Mundo Invisível atua de maneira sensível entre os gabinetes políticos, para que a Província Cisplatina fosse reintegrada em sua liberdade, após a conquista indébita levada a efeito pelas forças armadas de D. João VI, em 1821, sob a inspiração de D. Carlota Joaquina. A imposição para submetê-la era francamente impopular, porquanto, desde os primórdios da civilização brasileira, os mensageiros de Jesus difundiram o mais largo conceito de fraternidade dentro da pátria do Cruzeiro, onde todo o povo guarda a tradição da solidariedade e da autonomia.
10 E a realidade é que Ismael triunfava sempre. Apesar das primeiras vitórias das armas brasileiras, a Província Cisplatina, que não era um produto elaborado pela pátria do Evangelho e nem fruto de trabalho dos portugueses, separava-se definitivamente do coração geográfico do mundo, com a mediação pacífica da Inglaterra, para formar o território que se constituiu como a Banda Oriental do Uruguai.
11 Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos, a opinião pública do Brasil não abandonava a crítica a todos os atos e deliberações do imperador. D. Pedro, senhor da psicologia dos tempos novos, não ignorava quanta decisão exigiam os afazeres penosos do governo. Seus ministérios, no Rio de Janeiro, formavam-se para se desfazerem em curtos períodos de tempo. O país andava agitado e apreensivo, temendo as suas resoluções e espreitando os seus menores gestos. As suas aventuras amorosas eram perfidamente comentadas pelas anedotas da malícia carioca. O povo, conhecendo alguma coisa da sua conduta particular, encarregou-se de organizar a maior parte de todas as histórias ridículas em torno da sua personalidade, que, se era rude e sensual, não era diferente da generalidade dos homens da época e possuía, não raras vezes, rasgos generosos que tocavam nos mais altos cumes do sentimento.
12 A imprensa começada pelo conde de Linhares em 1808, sob a proteção de D. João VI, no casarão da Rua do Passeio, não o abandonou, transformando-se em sentinela dos seus menores pensamentos.
13 O imperador era acusado de proteger, criminosamente, os interesses portugueses, embora as suas ações em contrário.
Muitas vezes, nos seus momentos de meditação, no paço de São Cristóvão, já no tempo de suas segundas núpcias, deixava ele vagar o espírito pelo mundo rico das suas experiências, acerca dos homens e da vida, para reconhecer que todo aquele ódio gratuito advinha-lhe da situação de português nato. O Brasil era reconhecido à sua ação, no que se referia à independência política, mas não tolerava a origem do seu imperador, em se tratando dos problemas da sua autonomia.
14 Após a noite das “garrafadas”, em que os partidos políticos se engalfinharam na praça pública, de 13 para 14 de março de 1831, D. Pedro compareceu a um Te-Deum na igreja de São Francisco, sendo recebido, depois da cerimônia religiosa, pelo povo que o rodeou, com algumas demonstrações de desagrado.
15 Para conciliar os ânimos exaltados do partidarismo, D. Pedro organiza um novo ministério, todo ele formado por homens de sua absoluta confiança. O povo, entretanto, enxergando dentro do novo gabinete ministerial somente aqueles que considerava como os palacianos de São Cristóvão, reuniu-se no Campo de Santana, capitaneado por demagogos do tempo e, em poucos minutos, a revolução se alastrava pela cidade inteira.
16 Deputações populares são enviadas ao imperador, que as recebe com serenidade e indiferença. No seio dos revoltosos estão os seus melhores amigos. Os senhores da situação eram os mesmos a quem o imperador havia amparado na véspera. O próprio exército que ele organizara com infinito desvelo, voltava-se contra ele naquela noite memorável.
17 D. Pedro, depois de ouvir á meia noite as explicações do major Miguel de Frias, que viera a palácio em busca da sua decisão quanto às exigências do povo, que lhe impunha o antigo ministério, mandou chamar o chefe da guarda do regimento de artilharia aquartelado em São Cristóvão, ordenando, com serena nobreza, que se reunisse com os seus às tropas revoltadas e acrescentando generosamente: — “Não quero que ninguém se sacrifique por minha causa.”
18 Depois da meia noite, preferiu ficar só, na quietude do seu gabinete. Ali, considerou o patrimônio das suas experiências sagradas. Através do silêncio e da sombra, a voz de seu pai, já na vida livre dos Espaços, falava-lhe brandamente ao coração. Os mensageiros de Ismael auxiliam-lhe o cérebro esgotado na solução do grande problema, e às duas horas da madrugada de 7 de abril de 1831, sem ouvir sequer os seus ministros e conselheiros, o imperador abdicava na pessoa do filho, D. Pedro de Alcântara, que contava então cinco anos e ficaria sob a esclarecida tutela de José Bonifácio.
19 De manhã, já o ex-imperador do Brasil, junto de sua família, achava-se a bordo da nau inglesa “Warspite”, de onde se transferia à “Volage” para, através dos oceanos, ser conduzido aos mesmos triunfos da generosa ideia de liberdade.
Humberto de Campos (Irmão X)