Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho · Chico Xavier
Capítulo 32 de 32
Esclarecendo.
1 Todos os estudiosos que percorreram o Brasil, estudando alguns detalhes dos seus oito milhões de quilômetros quadrados, apaixonaram-se pela riqueza das suas possibilidades infinitas. Eminentes geólogos definiram-lhe os tesouros do solo e naturalistas ilustres classificaram-lhe a fauna e a flora, maravilhados de suas prodigiosas surpresas. Nas paisagens suntuosas e inéditas, onde o calor suave dos trópicos alimenta e perfuma todas as coisas, há sempre um traço de beleza e de originalidade empolgando o espírito do viajor, sedento de emoções.
2 Mas, se numerosos pensadores e artistas notáveis lhe traduziram a grandiosidade de mundo novo, contando “lá fora” as inesgotáveis reservas do gigante da América, todo esse espírito analítico não passou da esfera superficial de apreciação, porque não viram o Brasil espiritual, o Brasil evangélico, em cujas estradas cheias de esperança, luta e espera, sonha e trabalha o povo fraternal e generoso, cuja alma é a “flor amorosa de três raças tristes”, nа expressão harmoniosa de um dos seus poetas mais eminentes.
3 As reservas brasileiras não se circunscrevem ao mundo de aço do progresso material, que impressionou fortemente o espírito de Humboldt, mas se estendem, infinitamente, ao mundo de ouro dos corações, onde o país escreverá a sua epopeia de realizações morais, em favor do mundo.
4 Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro, a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos suaves florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas.
5 Ao ceticismo da época soará estranhamente uma afirmativa dessa natureza. O Evangelho? Não seria mera ficção de pensadores do cristianismo o repositório de suas lições? Não era apenas um cântico de esperança do povo hebraico, que a igreja católica adaptou para garantir a coroa na cabeça dos príncipes terrestres? Não era uma palavra vazia, sem significação objetiva na atualidade do globo, em que todos os valores espirituais parecem descer ao “sepulcro caiado” da transição e da decadência?
6 Mas, a realidade é que, não obstante todas as surpresas das ideologias modernas, a lição do Cristo aí está no planeta, esperando a compreensão geral do seu sentido profundo. Sobre ela levantaram-se filosofias complicadas e as mais extravagantes teorias salvacionistas. Em seu favor, muitos milhares de livros foram editados e algumas guerras ensanguentaram o roteiro dos povos.
7 Entretanto, a sublime exemplificação do Divino Mestre em sua expressão pura e simples, só pede a humildade e o amor da criatura para ser devidamente compreendida. Do seu entendimento decorre aquele “Reino de Deus” em cada coração, de que falava o Senhor nas suas meigas pregações do Tiberíades — reino de amor fraternal, cuja luz é o único elemento capaz de salvar o mundo que se encaminha para os desfiladeiros da destruição.
8 E os verdadeiros aprendizes, os crentes sinceros no poder e na misericórdia do Senhor esperam, com os seus labores obscuros, o advento da cristianização da humanidade, quando os homens, livres de todos os símbolos sectários de separatividade puderem entender, integralmente, as maravilhas ocultas da obra cristã.
9 Nas suas dolorosas provações dos tempos modernos, quando quase todos os valores morais sofrem o insulto da mais ampla subversão, esses Espíritos heroicos e humildes sabem, na sua esperança e na sua crença, que, se é permitido por Deus a prática de tantos absurdos, por parte dos poderosos da Terra, que se embriagam no vinho da autoridade e da ambição, é que todas essas lutas nada mais representam que experiências penosas, apressando a compreensão geral das leis divinas no porvir; 10 e, serenos na sua resignação e na sua sinceridade conhecem, ainda, que as lições do Evangelho não são símbolos mortos e esperam, cheios de confiança no mundo espiritual, a alvorada luminosa do renascimento humano.
11 Nessa abençoada tarefa de espiritualização, o Brasil caminha na vanguarda. O material a empregar nesse serviço não vem das fontes de produção originariamente terrena e sim do Plano invisível, onde se processam todos os ascendentes construtores da pátria do Evangelho.
12 Estas páginas modestas constituem, pois, uma contribuição humilde à elucidação da história da civilização brasileira em sua marcha através dos tempos. Seu único objetivo é provar a excelência da missão evangélica do Brasil no concerto dos povos e que, acima de tudo, todas as suas realizações e todos os seus feitos, forros dos miseráveis troféus das glórias sanguinolentas, tiveram suas origens profundas no Plano espiritual, de onde Jesus, pelas mãos carinhosas e suaves de Ismael, acompanha desveladamente a evolução da pátria extraordinária, em cujos céus fulguram as estrelas da cruz.
13 São elas, ainda, um grito de fé e de esperança aos que estacionam no meio do caminho. Ditadas pela voz de quem já atravessou as estradas poeirentas e tristes da Morte, elas se dirigem aos meus companheiros e irmãos da mesma comunidade e da mesma família, exclamando:
14 — “Brasileiros, ensarilhemos, para sempre, as armas homicidas das revoluções!… Consideremos o valor espiritual do nosso grande destino! Engrandeçamos a pátria com o cumprimento do dever pela ordem, e traduzamos a nossa dedicação com o trabalho honesto pela sua grandeza!… Consideremos, acima de tudo, que todas as suas realizações hão de merecer a luminosa sanção de Jesus, antes de se fixarem nos bastidores do poder transitório e precário dos homens!…
15 Nos dias de provação, como nas horas de ventura, estejamos irmanados numa doce aliança de fraternidade e paz indestrutível, dentro da qual deveremos esperar as claridades do futuro… Não nos compete estacionar, em nenhuma circunstância e sim marchar, sempre, com a educação e com a fé realizadora ao encontro do Brasil, na sua admirável espiritualidade e na sua grandeza imperecível!…” Humberto de Campos (Irmão X)
[1] Soneto de Olavo Bilac “Música Brasileira”, publicado no livro Tarde .