Auta de Souza · A própria · Chico Xavier

Capítulo 1 de 66

Notícias de Auta…

Sim, notícias de Auta, “a mais pura e dolorosa poetisa do Brasil”, na palavra de Edgar Barbosa; “a eminente e humilde Auta de Souza, a mais espiritual das poetisas brasileiras” — no juízo de Andrade Muricy; “poetisa de raro merecimento” — reconhece Olavo Bilac, que prefaciou seu “HORTO”, o único livro que ela nos deixou em sua rápida existência terrestre, uma “vida breve que foi canção, como na música de Manuel de Falla” — qual sente Luís da Câmara Cascudo, seu biógrafo. Tristão de Ataíde, no prefácio à 3ª edição do “HORTO”, acentua que Auta de Souza “nunca sonhou com a glória literária. Nem mesmo com esse eco que só depois de morta veio encontrar no coração dos simples, onde toda uma parte de seus poemas encontrou a mais terna repercussão. E esse sentimento de absoluta pureza é o que mais encanta nos seus poemas. Auta de Souza viveu em estado de graça e os seus versos o revelam de modo evidente. Daí o grande lugar que ocupa em nossa poesia cristã, em cuja cordilheira sempre há de ser um dos altos mais puros e mais solitários.” Francisco Palma, num soneto que lhe dedica, define-a “a cotovia mística das rimas”. Jackson de Figueiredo, opinando sobre “Horto”, considera “Auta de Souza como a mais alta expressão do nosso misticismo, pelo menos do sentimento cristão, puramente cristão, na poesia brasileira.” Manuel Bandeira, em formosa crônica na revista “Leitura”, declara haver relido a biografia de Câmara Cascudo “com a emoção — confessa — que sempre me despertaram a vida e a obra da poetisa nordestina… (…). Se algum dia escrevesse uma biografia de Auta, bem outra epígrafe (refere-se a “cotovia mística das rimas”, de Palma) lhe poria. Nunca vi, é verdade, o canto da cotovia. Mas sei de cor, desde menino, o final da “Morte de D. João”: A estrela da manhã na altura resplandece E a cotovia, a sua linda irmã, Vai pelo azul um cântico vibrando, Tão límpido, tão alto que parece Que é a estrela no céu que está cantando! Minh’alma vai cantar, alma sagrada! Raio de sol dos meus primeiros dias… Gota de luz das regiões sombrias Da minha vida triste e amargurada. Minh’alma vai cantar, velhinha amada! Rio onde correm minhas alegrias… Anjo bendito que me refugias Nas tuas asas contra a sina irada! “……………………………………

Jesus descia sobre o meu Horto… Estrelas lindas no céu brilharam, Voltou-me o riso, já quase morto. E a sua boca falou tão doce, Como se a corda de uma harpa fosse: Filha adorada que o teu gemido Ergueste n’asa de uma oração, Na treva escura sempre envolvido, Por que soluça teu coração? Levanta os olhos para o meu rosto, Que à vista dele foge o Desgosto. Não tenhas medo do sofrimento. Ele é a escada do Paraíso… Contempla os astros no firmamento, Doces reflexos de meu sorriso. Não pensa em dores nem canta mágoas A garça nívea fitando as águas. Sigo-te os passos por toda parte, Vivo contigo como um irmão. Acaso posso desamparar-te Quando me trazes no coração? Nas oliveiras do mesmo Horto, Enquanto orares, terás conforto.” Quando meu pobre coração doente, Cheio de mágoas, desolado e aflito, Sinto bater descompassadamente, Abro este livro então: leio e medito. Fugir à mágoa terrena E ao sonho, que faz sofrer, Deixar o mundo sem pena Será morrer?

Fugir neste anseio infindo À treva do anoitecer, Buscar a aurora sorrindo Será morrer?

E ao grito que a dor arranca E o coração faz tremer, Voar uma pomba branca Será morrer?

Lá vai a pomba voando Livre, através dos espaços… Sacode as asas cantando:

“Quebrei meus laços!”

Aqui, n’amplidão liberta, Quem pode deter-me os passos? Deixei a prisão deserta, “Quebrei meus laços!”

Jesus, este voo infindo Há de amparar-me nos braços, Enquanto eu direi sorrindo: “Quebrei meus laços!”

Segue os passos do Mestre enquanto é dia… Sobe do escuro vale para o monte, Que a coroa de lágrimas te aponte A vitória da crença que porfia. Não te detenhas na escabrosa via E que a taça de fel não te amedronte Louva o madeiro que te dobra a fronte Para a estrada cruel, áspera e fria. Enquanto há sol, avança na subida, De alma desfalecente e consumida, Bendizendo o martírio que te eleva! Seja a Luz tua excelsa recompensa, Porque a noite da morte é triste e densa Para aqueles que dormem sob a treva. Dá-me nas noites, negras de dores, Uma cruz santa para adorar, E em dias claros, cheios de flores, Uma criança para beijar.

Quando beijares teus filhinhos, pensa O que seria deles sem teus beijos… Filho do coração, além das dores Da cruz de pranto que te dilacera, Fulge, sublime, excelsa primavera Ao sol do amor de todos os amores. Agradece os espinhos e amargores Em que te afliges sob a longa espera… E lançando ao futuro a alma sincera, Vara, gemendo, os trilhos redentores. Chora, louvando as lágrimas doridas, Que nos lavam as sombras de outras vidas Como forças de imensa tempestade… Trabalha, serve e crê, ama e confia E ascenderás à glória da alegria No coração de luz da Eternidade. Depois da prece doce em teu recanto, Onde a luz do conforto surge, acesa, Vem ouvir os gemidos de tristeza Da miséria que a noite afoga em pranto. Contemplarás velhinhos de alma presa Às algemas de angústia e desencanto. E crianças que o frio envolve, enquanto Mães fatigadas tremem de incerteza… Ora e traze o consolo que te invade Por flama de alegria e caridade, Onde espinhos e lágrimas divises!… E entenderás na fé viva e sincera Que a presença do Cristo nos espera Entre as chagas dos grandes infelizes.