Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 111 de 116

Jorge de Lima

AH! SE EU PUDESSE…

1 Que tem este meu corpo, este meu corpo transparente?

Penso habitando um vaso de cristal.

2 Para onde foram as minhas rugas?!

Esconderam-se as rugas em mocidade nova…

3 Aonde ficou a minha opacidade?

Onde estão os quilos de meu corpo?

Sou agora tão diferente, qual pluma leve e multicor…

4 O que há? O que há?

Se a minha fome se modificou!

Hoje aspiro a essência dos deuses!

5 E esta luz, esta luz que surge em mim!

Há uma tocha escondida no meu peito.

6 Se não estivesse tão calmo, teria medo, muito medo…

7 E a vontade?

Minha vontade está valendo mais.

Nunca mais invejarei os passarinhos…

8 Mas, a memória!?

Oh! memória, não venha mais aqui!…

Toda vez que volto atrás sofro até chorar…

9 Ah! se eu pudesse fazer o mundo sentir o que sinto!…

10 Ah! se eu pudesse…

ASCESE

1 Lá vai…

— Que é?

— Um oceano de suor.

2 Lá vai…

— De onde vem?

— Da nascente do nada.

3 Lá vai…

— Aonde vai?

— Ao estuário do infinito.

4 Afinal, a libertação.

Momento de apoteose na Eternidade.

Fieiras de milênios e de vidas…

Labirintos de ideias e paixões…

Andanças, quedas, levantares, novas quedas, novos recomeços…

5 Agora, outras formas, outras dimensões, outros grãos da poeira cósmica.

Novos céus, novas terras, novos Cristos…

6 Múltiplas emoções fluem da Inteligência. Novos ares do Universo, novos panoramas, novas perspectivas no calidoscópio do existente…

7 Rompimento do indevassável, vitória sobre o impossível, disciplina do caos…

8 Além dentro do ser…

Além sem limitações…

Além, além do além…

Convivência mais íntima nas causas…

9 Aonde pensa o viandante das nebulosas?

O que faz ele?

Qual a sua fisionomia?

10 Voltará por aqui?

Ninguém sabe…

Ninguém sabe…

[1] JORGE Mateus DE LIMA — Tendo concluído o curso médico, em 1914, no Rio de Janeiro, volta Jorge de Lima, em 1922, a Maceió, onde é recebido como o “Príncipe dos Poetas Alagoanos”. Poeta, romancista, jornalista, contista, ensaísta, professor de Literatura na Universidade do Brasil, era um talento multívio. Em sua última fase literária, após ter abandonado o modernismo regionalista que tanta fama lhe trouxera, J. de Lima “incursionou pela poesia religiosa e terminou cultuando uma poesia quase abstrata, ou tirante a escrita automática”. (Péricles E. da Silva Ramos, in A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág. 609.) Referindo-se ao Livro de Sonetos do poeta, J. Fernando Carneiro “informa, com sua autoridade de médico, amigo e exegeta de Jorge de Lima, que ele escreveu todo o livro, 77 sonetos e mais 25 que continuaram inéditos, em pleno estado hipnagógico e no espaço apenas de 10 dias”. (apud A. Rangel Bandeira, Jorge de Lima…, pág. 115. ) “O poeta que escreveu a Invenção de Orfeu, e se chamou Jorge de Lima,” — disse Eduardo Portella — “foi dos mais complexos e fortes de toda a nossa poesia moderna.” “Muitas vezes” — observa Rangel Bandeira (ibidem, pág. 123) — “Invenção de Orfeu dá a impressão de ter sido um livro psicografado; era Jorge de Lima que registrava seu próprio delírio.” Segundo Fernando Carneiro, o poeta alagoano foi “a encarnação da bondade”: “Tudo em Jorge de Lima estava envolto num halo de bondade, até a sua tristeza, até as suas fraquezas.” (União dos Palmares, Est. de Alagoas, 23 de Abril de 1893 — Rio de Janeiro, Gb, 15 de Novembro de 1953.) BIBLIOGRAFIA: XIV Alexandrinos; Poemas; Poemas Escolhidos; Tempo e Eternidade; Invenção de Orfeu; etc. [2] Ver Antônio Rangel Bandeira, Op. cit., pág. 16. [3] Verso 2-15. - Exemplos de anadiplose: “…este meu corpo, / este meu corpo… — “E esta luz,/ esta luz que…” [4] Versos 5-18-23. - “Para onde foram as minhas rugas?!/ Esconderam-se as rugas”; “Se não estivesse tão calmo, teria medo,/ muito medo…”; “Mas, a memória!?/ Oh! memória”. Exemplos de epífora: “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no fim de vários VERSOS…” (Geir Campos, Op. cit.) [5] Versos 7-8. - Aonde-Onde. Cf. nota nº 72, pág. 141. [6] Verso 21 - Refere-se o poeta à possibilidade que tem o Espírito de se locomover pela volitação. [7] Versos 29-36. - Exemplos de anáfora: “Ah! se eu pudesse!” e “Lá vai…” [8] Verso 32 - Atente-se na hipérbole.

[9] Verso 53 - Observem-se a enumeração e os diversos exemplos de poliptoto. [10] Verso 58 - Anáfora.

[11] Verso 59 - Epanalepse, mesarquia e mesotelêuton: “Além, além do além…” [12] Verso 67 - Vamos, em seguida, transcrever pequeno trecho do “Poema do Cristão”, de A Túnica Inconsútil (apud Luiz Santa Cruz, N. Cl., nº 26, pág. 57), de autoria do distinto poeta, quando ainda entre os homens: “Os milênios passados e os futuros não me aturdem porque nasço e nascerei, porque sou uno com todas as criaturas, com todos os seres, com todas as coisas, que eu decomponho e absorvo com os sentidos, e compreendo com a inteligência transfigurada em Cristo.

Tenho os movimentos alargados.

Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria; sou velhíssimo e apenas nasci ontem, estou malhado dos limos primitivos, e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais, compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos, tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.”