Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 98 de 116
Lulu Parola
CONFISSÃO
1 Quando a cela de carne vira pó, A gente volta vivo para cá, Lembrando com saudade de dar dó Essa boia daí que, aqui não há…
2 Moqueca, caruru, mãe-benta, efó, Quibebe, canjiquinha, munguzá, Sequilhos, abará, manuê, bobó, Tutu, acarajé e vatapá…
3 Vivo morto de fome por aqui! Para que eu não embirre igual guri, É preciso ter muita e muita fé…
4 Puxa, meu pessoal! que sururu! Ouçam meu coração que fala nu: Cuidado, pois o garfo dá banzé! TEATRO
1 Quanto caboclo iludido No esforço de ovacionar! Quanto tempo, em vão perdido! Mas, amanhã, sem ruído, Dona Morte vai chegar!…
2 Vejam vocês, minha gente, Que teatro original!
Dentro dele quem não sente O poder da nossa mente, Nossa cultura ideal?
3 Quanta buzina que soa! Quantos carros em ação! Vejam só quanta pessoa, Gente rica e gente à-toa… Hoje é dia de função!
4 Que moderna arquitetura! Colunatas no jardim, Decoração, escultura, E paredes com pintura De uma beleza sem fim!
5 Brilha a riqueza excessiva! Luz solar em profusão. Muita música festiva, E criança que se esquiva Circulando no saguão.
6 Mas em meio ao vozerio, Rápido, surge um senhor Em pleno palco vazio.
Silêncio quase sombrio No recinto encantador.
7 A exibição que se espera Afinal vai começar!
O povo que se aglomera Olha o ator de cara austera, Ele agora vai falar!
8 Surgirão flores e cenas? Arte e ciência também? Montagens grandes, pequenas? Bons episódios que apenas Falem da força do bem?
9 Nada disso! Ai nossos calos! Escutem! Todos vão ver! Nem gritos e nem abalos! É a grande briga de galos, De matar ou de morrer!…
10 Quanto caboclo iludido No esforço de ovacionar! Quanto tempo, em vão, perdido! Mas, amanhã, sem ruído, Dona Morte Vai chegar!… [1] LULU PAROLA (ALOÍSIO Lopes Pereira DE CARVALHO) — Devotado jornalista, e poeta de humor fino e original. Manteve, de 1891 a 1919, uma seção diária de versos humorísticos no Jornal de Notícias, de Salvador, intitulada “Cantando e Rindo”, assinando-a Lulu Parola, pseudônimo literário com que se popularizou: Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira nº 2. Deputado estadual. Redator de A Tarde, de 1925 até o dia de sua desencarnação. Florêncio Santos, no seu artigo — Reminiscências da “A Tarde” — estampado no Jornal do Commercio de 28 de Outubro de 1962, assim se referiu a ele: “Homem bom e amigo leal, era Aloísio um chefe de família exemplar. Desprovido de bens materiais, foi um nababo da inteligência e do idealismo.” (Salvador, Bahia, 27 de Março de 1866 — Salvador, 2 de Fevereiro de 1942.) BIBLIOGRAFIA: Cantando e Rindo, 1ª Série; Cantando e Rindo, 2ª Série; etc. [2] Verso 2 - a gente. Natural ao poeta esta locução pronominal de cunho popular. [3] Verso 26 - Poliptoto: “Quanta… / Quantos…” [4] Verso 64 - Apreciando o estilo do poeta baiano, recordemos a 5ª estância de “O Brasil” (ap. Aloysio de Carvalho Filho, Col. Poet. Bahianos), lançado por ele, quando no Plano Físico: “Que casa grande e bonita! Vocês, crescendo, verão!… E a gente que nela habita, Para acolher a visita, Tem sempre aberto o portão!…”