Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 9 de 33

Petição e resposta

1 Busquei o campo, a fim de meditar Nas provações da Terra, em vastas crises…

2 Como sanar a dor das almas infelizes? Como estender a fé ao pranto do pesar?

3 Encerrada em mim mesma, ali, à sós, Fitei o Céu imenso, a esmaltar-se de luz, E surpreendi-me, orando em alta voz, Perguntando a Jesus:

4 Mestre e Senhor!…

Já que nos enviaste ao mundo desatento, Para falar do amor E proclamar-te o ensinamento Nos alicerces da esperança, O que dizer aos homens nesta hora De amarga transição?

5 O sofrimento avança E enquanto as luzes do progresso Tomam novos lauréis nas grimpas onde estão, Vemos a multidão que se excrucia e chora Nos mais remotos ângulos da vida…

6 O que dizer, Senhor, à mágoa indefinida Das mães que perdem filhos bem-amados Que apenas começavam a viver?!…

7 Filhos de primavera e juventude, Que recolhem nos braços desolados, Quais lírios em botão, Que a morte decepou, antes da floração?

8 Que dizer aos que fogem Para os domínios da aventura E caem, sem pensar, nas tramas da loucura, Superlotando sanatórios Que lhes apaguem a alucinação?

9 Que ensinar aos irmãos acidentados, Que despertam, depois da anestesia, Para saber que foram mutilados, Com mais problemas para cada dia?

10 De que modo afastar o desconforto Da mulher que carrega um, filho nascituro, Ante o marido morto, Imaginando as dores do futuro?

11 O que dizer, Jesus, aos que vagam na estrada, Muitas vezes com febre, frio e fome, Sem apoio e sem lar na caminhada De aflição que os consome?

12 Como extirpar a desesperação Daquele que organiza a própria despedida, No intuito de fugir ao fel da própria obrigação E fazer-se suicida?

13 Como extinguir na Terra a violência e a penúria Dos conflitos do ódio sempre em fúria, A fim de apedrejar e destruir Tudo o que mostre o bem, nas asas do porvir?

14 Confesso que chorei, mas mergulhada em pranto, Escutei, de repente, Um celeste mentor que, em silêncio, me ouvia, A me dizer, fraternalmente:

15 — Irmã, a dor no mundo é o preço da alegria, Sofrimento é recurso amargo e santo Preparando, na Terra, os dias que virão…

16 Bendita seja a luz da provação! Se desejas servir ao Cristo que nos chama, Nada reclames… Segue, serve e ama!

17 Nisso, ouvi alguém gemendo, em voz dorida e mansa… Larguei-me da emoção, Indagando a mim própria quem seria…

18 Atravessei, à pressa, alguns trechos de chão E encontrei, dentro da noite fria, Paupérrima choupana…

19 Lá dentro, um quadro de ternura humana: Pobre mulher, em pranto, procurava Podar a dor de frágil pequenina, Que doença fatal, aos poucos, destruía, Por falta de agasalho…

20 Coloquei-me em trabalho, E envolvendo-a de todo, Fiz-me calor e paz, apoio e segurança… E, em oração, no estreito bosque escuro, Compreendi que amparar a uma criança É também cooperar nas bases do futuro. Maria Dolores