Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 29 de 33

O caminho do Reino

1 Após a última ceia, o discípulo João, O mais jovem do Grande Apostolado, Sob forte impressão De tudo quanto ouvira do Senhor,

2 Tendo Jesus ao lado Indagou, pensativo:

— “Mestre, é tão grande a luz da esperança em que eu vivo, Que me permito perguntar:

Onde posso encontrar, Inda mesmo em estudo alto e profundo, Nas instruções do mundo, O caminho real para o Reino do Amor?”

3 O Cristo replicou: — “Medita, João, Asserena teu próprio coração, Aqui, ali, além, seja onde for, Segue plantando o bem, a paz, o amor…

4 A vida é um livro aberto E a própria vida te trará por certo, Ante as inspirações que vertem das Alturas, A estrada para o reino que procuras…”

5 Depois do encontro amigo, Tudo se transformou nas Boas Novas… O grupo penetrou em grandes provas: Medo, tristeza, angústia, inquietação, perigo…

6 Jesus fora arredado da enxovia. Em silêncio e à distância, João seguia Todas as ocorrências, de hora a hora.

7 Por fim, notou, quase desatinado, Que o Mestre, portador de tanto bem, Vinha sendo espancado Sob as injúrias de Jerusalém.

8 O apóstolo sem paz Observou que a multidão Lançava o Cristo na condenação E absolvia Barrabás…

9 Perplexo anotou que a tantas zombarias Não formulou Jesus quaisquer respostas… O Mestre admitira a cruz às costas, Por entre acusações e gritarias.

10 Depois, ei-lo a seguir fatigado e hesitante… Tropeçava, suarento.

O cortejo seguia, frio e lento, A engrossar-se de gente, instante a instante.

11 Para ajudar-lhe a marcha estranha e triste, Foi trazido até ele o cireneu… A turba protestou, de dedo em riste, Jesus, porém, calou-se e nada respondeu…

12 Terminado que foi o duro itinerário, Alcançara o Senhor o cimo do Calvário…

13 João que a tudo assistia, Antes de se achegar à bênção de Maria, Esmagado de dor, surpresa e espanto, Rememorava em pranto Todo o amor que Jesus distribuíra…

14 As pregações do lago, ante os céus de safira, O Sermão da Montanha, à luz da Natureza, O pão multiplicado, o riso das crianças, A exaltação das bem-aventuranças, Os doentes curados, a beleza Da fé que renascia em tanto rosto Que a provação cobria em névoa de desgosto…

15 Lembrava os paralíticos reerguidos, A gratidão de todos os caídos Que o Mestre levantara para o bem…

16 Como entender, assim, Jerusalém Que condenava o mensageiro Da Bondade dos Céus para com o mundo inteiro?

17 Tocado de emoção e sofrimento, Abeirou-se do Cristo, então tranquilo e atento, E ponderou: — “Senhor, não posso crer… Pelo bem que se faz, é preciso morrer?

18 Por haveres plantado a paz e a luz Deves achar a morte sobre a cruz? Defende-te, Senhor, fala, protesta, O teu ensinamento é a força que me resta, Não me deixes, em dúvida, sozinho!…

19 Mas Jesus, compreendendo o tempo escasso, Respondeu, transpirando amargura e cansaço: — “Não te lamentes, João!… Deus vive em nós…”

20 Depois, erguendo a voz, Disse, fitando o monte em pedra e espinho, A refletir no olhar a própria dor: — “Por enquanto, na Terra, este é o caminho, O caminho real para o Reino do Amor!…” Maria Dolores