Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 26 de 33

Nesga de prova

1 Foi num cenário de atualidade, No recinto de luxo, o público à vontade, Delirava e aplaudia A jovem que aliava harmonia e beleza, Qual se fosse uma flor da natureza, Enquanto se despia…

2 A música ambiente Escorria no espaço, docemente.

3 A atriz desajeitada Que era o enfeite daquela madrugada, No palco debruado a cores fascinantes, Embora a movimentação cadenciada, Passo leve de cisne pequenino, Mantinha os olhos baixos, Tentando recobrir o corpo alabastrino Com os cabelos tecendo longos cachos, Como se desejasse Esconder no rubor da própria face A dor com que guardava o seu próprio destino.

4 O quadro da nudez artística surgia Apenas por instantes E, regressando a moça aos bastidores, Um senhor de alto porte Destacou-se de um grupo de senhores…

5 Homem moço a exibir gestos brejeiros Parecia chegando aos quarenta janeiros… Ausenta-se da sala e aguarda na saída A jovem que desponta, ainda mais bela, Nobremente vestida.

6 Embora revelando fino trato, Ele avança, zeloso, e diz à ela Quanto lhe admirara a beleza e o recato Na cena colorida Que ela marcara de ternura e vida.

7 Ela agradece a saudação E procura afastar-se; Ele, porém, sem mais disfarce Da educação que mostra atravessa o limite, Faz-lhe estranho convite,

8 Mas a jovem lhe fala, olhos em pranto: — Não me ofenda, senhor, Tenho somente dezessete anos… Espero para breve um casamento E se aceito esta ingrata profissão É pelo pagamento Para a manutenção De minha pobre mãe tuberculosa…

9 E acentuou mais triste e mais chorosa: — Ainda agora fui chamada Para vê-la, talvez, na despedida… Um longo tratamento foi inglório… Minha mãe, meu senhor, Agoniza, exilada em sanatório.

10 Ela contrata um táxi, apressada… O cavalheiro sob enorme assombro, Liga o seu próprio carro e segue-a na largada.

11 Entra a menina no hospital E ouve as opiniões de estimada enfermeira, Depois, segue ligeira Para o vasto aposento, Onde a mãezinha, em rude sofrimento, Aguarda a hora derradeira…

12 Entre as duas, o olhar é de angústia e de pranto, Repleto de aflição, de amor e espanto…

13 Mas nisso o cavalheiro esbaforido, À custa do obséquio de um porteiro Que peitara a dinheiro.

Rápido, alcança o quarto em forçado alarido…

14 Vendo, porém, a dama quase morta, Assusta-se, recua e quer voltar à porta, Mas a doente ganha forças E vencendo a terrível dispneia, Assombrada lhe diz:

— Agenor!… Agenor!…

Não fujas, nem desprezes nossa dor!…

15 A santa mãe de Deus É que te trouxe aqui, Não te vás!… Nada temos contra ti!… Vinte anos passaram de saudade, O tempo para mim foi uma eternidade… Esperei-te em serviço, Sem jamais esquecer o nosso compromisso, Até que o corpo frágil me traiu, A saúde caiu Mas nada me faltou…

16 Nossa filha, empregada de escritório, É meu apoio neste sanatório… Mas agora… Agenor…

A morte já vem perto…

Perdoa-me se levo o teu amor No meu peito cansado, enfermiço e deserto…

17 Mas… se posso fazer-te algum apelo, Ampara a nossa filha, Protege-a, sob a força de teu zelo… Jovem, quase menina, Ela é a nossa heroína Que nunca me deixou sem remédio e sem pão…

18 Se é que vieste ver-me, Vem por Deus a fim de recebê-la, Como sendo no mundo a nossa estrela E o nosso coração…

19 O cavalheiro pálido, suspenso, Enxuga as próprias lágrimas num lenço. Talvez pela energia despendida, A senhora calou-se em paz indefinida… Aquele corpo triste, enfim, morrera, Guardando da alma ausente um sorriso de cera.

20 Ante quatro enfermeiras espantadas O homem agora em pranto Humildemente busca a menina que chora, Toma-lhe a mão da qual não mais se desvencilha, Abraçam-se depois, Em soluços os dois…

E olhos postos talvez nas brumas do passado O cavalheiro transformado Reconhece que achara a sua própria filha!… Maria Dolores