Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 23 de 33

Redenção e amor

1 A polícia chamara a velhinha presente. Na sala de chefia, estava pouca gente, Mas, no centro do quadro, uma jovem brilhante, A quem a fama abrira as portas, Levantou-se arrogante E, apontando a senhora, Que se vestia humildemente, Falou ao delegado de plantão:

2 — Esta mulher aí de pernas tortas Já me esgotou a paciência, Por favor, excelência, Exijo que ela seja repreendida, É uma velha idiota a me arrasar a vida, Diz ser a minha mãe, andando aqui e ali Mas sei que minha mãe morreu quando eu nasci…

3 Creio seja a mulher de muita idade Que mora aos fundos da mansão, Onde encontrei a minha educação E onde ela vive pela caridade.

4 Tenho um nome correto a defender, Nos clubes, nos jornais, Afastá-la de mim é apenas meu dever, Quero que esta gorilha Não me chame por filha, Nem me incomode mais.

5 O delegado fita a acusada infeliz, Que se mostrava pálida e sem jeito, E indaga a respeito:

— A senhora?… O que diz?

6 A velhinha informou, em tom magoado: — Peço consentimento, A fim de esclarecer ao senhor delegado Que estou viúva, há mais de vinte anos…

7 Vivi com meu marido poucos dias… Era ele pintor, lidando em grande altura, Faleceu ao cair de uma laje insegura,

8 Fiquei grávida e só, recalcando agonias… Na condição de lavadeira, Vivo sempre reclusa No lar que me albergou a vida inteira, Onde nasceu a jovem que me acusa;

9 Ela cresceu, senhor, fez-se forte e instruída, E agora resolveu mudar a própria vida…

10 A moça aparteou, bradando revoltada: — É mentira, excelência… Esta velha estouvada É um caso apenas para sanatório…

11 Antes, porém, que o delegado Emitisse apressado Qualquer conceito vexatório, Ouviu-se o coração materno, conformado:

12 — Disse toda a verdade, meu senhor, Esta filha que eu tenho é a linda estrela De minha estrada dolorosa, No entanto, se é feliz sem meu amor, Aceito a acusação de mentirosa E prometo não mais aborrecê-la.

13 Ambas não mais se viram, frente à frente. Aquela mãe sem forças, mais doente, Da Terra desprendeu-se, fatigada…

14 Mas a filha seguiu por outra estrada. A borboleta humana embevecida Quis desfrutar, sem pausa, os prazeres da vida…

15 E viveu mais dez anos, festa em festa, De coração afoito e desatento…

16 Almas lesadas, luto e desalento Seguiram-lhe, no mundo, a insensatez funesta…

17 Mas a doença veio e a pobre já não era A jovem que lembrava a primavera, A princesa da noite e da ilusão…

18 Depois de angústia imensa, em longos dias, Na mais deserta das enfermarias, A morte situou-lhe noutras plagas…

19 Ei-la agora na vida diferente… Sentia-se, em si própria, como em chagas; Parecia guardar a memória doente

20 E, acima dos remorsos que trazia, A dor da triste mãe que desprezara, um dia, Punha-lhe o coração em fogo lento.

21 Não mais soube contar o dia, a hora, Porque, perante o Além, na culpa de quem chora O tempo se transforma em sofrimento…

22 Meses correram sobre muitos meses, Via-se em sombra e a sós… No entanto, algumas vezes, Ouvia vozes perto… Era a doce lembrança Da meninice longe, entre as bênçãos do lar… Ternos motes de amor e canções de ninar, Como notas de paz em brisas de esperança…

23 Passados alguns anos, certo dia, Enxergou novamente o sol, a natureza… Pranteia de emoção, embora presa À luz, à imensa luz que lhe sorria…

24 Eis que alguém lhe aparece… Um anjo de visita Ou luminoso ser de beleza infinita? Ela chora, a sentir-se envergonhada, Mas esse alguém lhe fala com ternura:

25 — Vida de minha vida, filha amada, A dor é a grande estrada para a Altura, Quero ver-te, de novo, nos meus braços, Regressarás à Terra, em minha companhia, Minha flor de alegria, Renascerás comigo no futuro…

26 Filha querida, estrela de meus passos, Buscaremos, na Terra, as fontes do amor puro. Como sempre, serás meu sonho e meu encanto, Filha do coração, tesouro que amo tanto!…

27 Mas a pobre exclamou: — Quem sois vós que falais? Filha? Fui sempre má, não mereço este nome… Reneguei minha mãe, o fel que me consome É o remorso cruel que não se acaba mais…

28 Quem sois vós que não vedes minha dor E nem reconheceis a angústia que me leva A recear a luz e esconder-me na treva?…

29 Por quem sois, anjo ou luz, uma santa ou uma estrela Levai-me à mãe que eu tive, quero vê-la… Onde está minha mãe, meu refúgio e meu guia? Somente minha mãe me perdoaria…

30 Mas a nobre entidade apenas respondeu: — Ouve, filha querida!… A tua mãe sou eu!… Maria Dolores