Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 2 de 33

Regresso de Simão Pedro

1 Simão Pedro desperta, além da vida humana. Retoma, pouco a pouco, as forças da memória. Terminara, por fim, a luta insana Do flagelo por grande pesadelo.

2 Recorda a cruz do fim, levantada ao avesso, Que aceitara na Terra por vitória… Sabe que está no Além, pensando em recomeço Do próprio apostolado…

3 Onde estaria o Mestre Sempre Amado? E os outros companheiros De ânimo nobre e forte, Que o haviam, no mundo, precedido, Sob a perseguição sem pausa e sem sentido, Ao encontro da morte.

4 A brisa da manhã suave e cristalina Trazia-lhe perfume ao leito novo e alvo…

5 Indagava Simão: “Que surpresas teria?” Tocou o próprio corpo, achou-se são e salvo E chorava, enlevado, em suprema alegria…

6 Alguns instantes mais e ouviu, enternecidamente, Cânticos de louvor e saudação;

7 Alguém surgiu à porta, de repente, Envolto em doce luz A doar-lhe conforto e proteção… Pedro entendeu quem era e bradou-lhe: “Jesus!”

8 Erguendo-se, em seguida, Leve e ágil, gritou: “Ave, Senhor da Vida!…”

9 Cristo abeirou-se dele, a enlaçá-lo sorrindo, Depois vieram outros companheiros, Instrutores, amigos, mensageiros, Do júbilo fazendo o festival mais lindo…

10 Pedro enxergou, feliz, os vergéis exteriores… Eram jardins imensos, Recheados de flores.

11 Em profunda euforia, O ditoso Simão Tomou a si a mão Que Jesus lhe estendia E disse, quase em pranto:

12 — Senhor; estou cansado, Não mais me distancies de teu lado… Trago comigo a dor Dos que moram no mundo, Aquele imenso caos, cada vez mais profundo, De penúria, fadiga e sofrimento…

13 Não desejo perder as luzes que hoje alcanço, Permite-me, Senhor ficar contigo, Neste celeste abrigo…

14 Necessito de paz, de socorro e descanso… Louvo a ti por me buscares…

Deixa-me nestes bosques estelares…

15 Ao mundo de onde venho, Pelas tribulações padecidas no lenho, Não mais quero voltar…

Desejo aqui viver contigo, neste lar…

16 Mas Jesus apontou-lhe o imenso espaço à frente E falou-lhe a sorrir:

— Fica, Simão, se estás contente…

17 Estes sítios são teus, Tanto quanto de todos os irmãos Que serviram, na Terra, à bondade de Deus…

18 Cristo fez pausa e, logo após, Explicou: Quanto a mim, Não posso repousar; A construção do bem é o meu lugar…

19 Ouve, Simão!… Enquanto Houver na Terra um só gemido Numa gota de pranto, Enquanto houver no mundo um coração caído, Devo esforçar-me por permanecer No trabalho do amor que é meu dever…

20 Mas, descansa, Simão!… Ver-nos-emos depois, Nunca houve distância entre nós dois…

21 Afastou-se Jesus, Entretanto, Simão fitando o Excelso Amigo, Bradou sem vacilar:

— Senhor, eu vou contigo!…

22 No passo firme do Divino Mestre, Ambos se retiraram das Alturas, Buscando a direção das faixas obscuras Da vastidão terrestre…

23 Na retaguarda, em paz, ficou a multidão De almas angelicais, numa doce canção, Cujo estribilho recordava Esta expressão de luz dos hinos galileus: — “Louvado seja o amor!… Bendito seja Deus!…” Maria Dolores