Agência de Notícias · Jair Presente · Chico Xavier

Capítulo 4 de 21

Sovinice

1 Era um caso singular O caso de João Monteiro, Capitalista aos quarenta, Só procurava dinheiro.

2 Vivia sempre isolado. Segregação incomum, Não cultivava amizades Nem tinha parente algum.

3 Emprestava, a juros altos, E usando rasteira e treta, Prendia com papelada Muita gente na gaveta.

4 Se alguém lhe rogasse auxílio, Considerava, brigão: — “Para todo petitório A minha resposta é não.”

5 Senhoras vinham a ele Falando em beneficência, Necessitavam de apoio Para os irmãos em carência.

6 João dizia com sarcasmo: — “Não desejo compromisso, Se alguém é doente e pobre, Eu nada tenho com isso…”

7 Se um menino aparecesse, Pedindo a esmola de um pão, Gritava: — “Saia daqui! Menino sujo é ladrão…”

8 A mendigo que surgisse Rogando-lhe algum café, Exclamava, zombeteiro: — “Passe bem, fique como é…”

9 Se alguém lhe adiava os juros Na data prefixada, Ouvia-lhe os desaforos, Sofria-lhe a mão pesada.

10 Certa noite, João em sonho Viu a morte… Parecia Ver um anjo estranho e lindo A dizer que o buscaria…

11 Ele pensou na fortuna Que retinha com cuidado, Sobressaltou-se, chorou E implorou, acabrunhado:

12 — “Grande Morte, grande dama, Preciso ainda viver; Deixe-me… Venha mais tarde… Tenho muito que fazer…”

13 Disse a Morte, brandamente: — “O seu pedido é perfeito, Mas o seu tempo é chegado E o que se fez está feito.

14 “Você me chama por grande, Como se eu fosse rainha, No entanto, entre as criaturas, Sou fraca e pequenininha…”

15 João acordou, assustado, Vestiu-se, pôs o boné; Ao calçar-se, um prego solto Feriu-lhe um dedo do pé.

16 Logo, logo, o dedo inchado Impunha-lhe muita dor… Fez banhos, colou emplastros, Mancando foi ao doutor.

17 Mas tudo acabou, em vão… Com várias radiografias, O tétano levou João Simplesmente em cinco dias… Jair Presente