Astronautas do Além · Autores diversos. — F. C. Xavier. / J. Herculano Pires · Chico Xavier

Capítulo 4 de 30

Preâmbulo de Francisco C. Xavier/Brevidade da vida - Trova do tempo/Luciano dos Reis - Tempo de viver/Irmão Saulo

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER.

A página de trovas do nosso amigo espiritual Luciano dos Reis foi recebida no encerramento de nossa reunião pública. Ante o reinício do tempo, no ano novo, as conversações que nos precederam as tarefas versaram sobre a brevidade da existência humana.

Companheiros diversos se reportavam ao pesar por certas oportunidades perdidas, enquanto outros lançavam indagações sobre a significação do tempo em nossa vida.

No começo dos trabalhos O Livro dos Espíritos nos ofereceu a questão 992, dando motivos a justas reflexões.

TROVA DO TEMPO.

1 Ensino que a vida insiste Em compor e recompor:

— O tempo que faz o ódio É o mesmo que faz o amor.

2 A criatura sem tempo, Que não gasta o tempo em vão, Em tempo algum acha tempo Para ouvir a tentação.

3 Há quem não roube dinheiro, Nem vantagem parecida, Mas furta o valor do tempo Necessário à luz da vida.

4 Filosofia do tempo Em qualquer tempo e lugar:

— Infeliz do coração Que não consegue esperar.

5 O tempo recorda, a gleba Onde a mata se agiganta, Recebe qualquer semente, Dá tudo do que se planta.

6 Bondade, apoio, serviço, Resgate, atenção, dever…

Nota que o tempo não para, Não há momento a perder.

7 Ação é a mente por fora Que nos põe a vida em tela, Os outros nos fotografam, Depois o tempo revela.

8 Para encontrar a justiça Reflete no Eterno Bem…

Deus dá tempo igual a todos, Não menospreza ninguém.

Luciano dos Reis TEMPO DE VIVER.

Desde que o homem começou a pensar, a tomar consciência de si mesmo e do mundo, o problema do tempo o preocupou. Muitos equacionaram esse problema, mas ninguém o resolveu. O primeiro aforismo de Hipócrates aparece em latim na forma clássica de Ars longa, vita brevis que Camões repete neste verso: “Para tão curta vida, tão longa arte!” O simpósio espírita semanal de Uberaba teria também de enfrentar esse problema, mas agora dispondo da solução espírita. O Eclesiastes afirma que Deus fez tempo para tudo. Em A Gênese de Allan Kardec, temos uma definição do tempo que nos mostra a sua relatividade. Esta concepção da relatividade do tempo se acentua na doutrina das vidas sucessivas, das existências palingenésicas que são solidárias entre si. Para cada existência, um determinado tempo — o tempo necessário à execução das tarefas que o Espírito traz como sua incumbência inalienável na reencarnação. Assim, o aforismo Ars longa, vita brevis corresponde apenas a uma visão limitada das coisas. Deus nos concede tempo para tudo, mas não nos exíguos limites de uma encarnação. Camões via a extensão infinita da arte, em que poderia criar sem cessar, mas se angustiava com o tempo exíguo de que dispunha. Não obstante, além dos limites existenciais ele poderia dispor do ilimitado da vida que se amplia na duração em termos de imortalidade. Assim como o dia é curto para a execução de um trabalho, mas podemos prolongá-lo com o dia seguinte, assim acontece na sucessão das encarnações. As Filosofias da Existência nos reclamam atenção para o aqui e o agora, mas o existencialismo espírita, valorizando essas categorias no momento que passa, não se esquece de que já dispusemos do ontem e disporemos do amanhã. No tempo anterior, no ontem, condicionamos o aqui e o agora à execução de determinadas tarefas e Deus nos concede hoje o tempo para isso. Se aproveitarmos bem o tempo concedido, ele não nos parecerá insuficiente. Se o esbanjarmos condicionaremos o amanhã a novas angústias de tempo. É assim que podemos entender os versos finais de Luciano dos Reis: “Deus dá tempo igual a todos / não menospreza ninguém”. Reclamamos do tempo o que devíamos reclamar de nós mesmos, pois o que nos falta neste momento corresponde exatamente ao que esperdiçamos ainda há pouco. Se aproveitarmos com inteligência e cuidado cada minuto que passa, veremos que Deus nos concedeu tempo para tudo o que temos realmente de fazer nesta vida. Irmão Saulo [1] Ano de 1973.