Astronautas do Além · Autores diversos. — F. C. Xavier. / J. Herculano Pires · Chico Xavier
Capítulo 19 de 30
Preâmbulo de Francisco C. Xavier/Cansados e tristes - Retrato da fé/Maria Dolores - Retrato do tédio/Irmão Saulo
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER.
Muitos dos amigos e irmãos que nos visitavam a instituição mostravam-se desanimados e abatidos. Problemas da vida e conflitos em família eram comentados por grande número de companheiros. E muitos outros se diziam cansados e tristes, sem a alegria de viver. Depois da visita aos lares, que fazemos habitualmente aos sábados, as conversações cessaram e deram lugar à reunião. O Livro dos Espíritos nos deu para estudo a pergunta-questão 943. O tema, que se referia às anotações da noite, foi explanado por uma de nossas irmãs presentes. Ao término das tarefas a nossa Maria Dolores escreveu a mensagem-poema intitulada Retrato da Fé. RETRATO DA FÉ.
1 Ao homem que tombara em desalento, Crendo-se velho, inútil e sozinho, Deus permitiu pudesse escutar, certa feita, Grande árvore seca, mas de pé, Que lhe falou, num cântico de fé, À beira do caminho:
2 — Amigo, ergue-te e segue… Deus nos vê. Não perguntes por que A velhice aparente nos recobre… Muitos passam aqui, parando na viagem… Lamentam-me a nudez, dizem-me triste e pobre. Entretanto, ainda guardo A seiva da esperança e da coragem Que Deus criou em mim.
3 Um dia fui esplêndido jardim, Os pássaros cantavam nos meus braços, Depois voavam, devorando espaços, Em seguida, tornavam da distância A me pedirem ninhos!
Com que amor lhes guardava os filhotinhos!
4 Louvava o Excelso Pai por minha mocidade E orava a oferecer-lhe a minha gratidão Sob a forma de flores Do júbilo profundo.
Quando se tem no mundo A paz do coração!…
5 Deus aceitava as minhas preces, Transformando-as em frutos Para todos aqueles que passassem… Quantos homens vieram e os colheram! Muitos nobres e bons, outros fracos e brutos Que me varavam, galho a galho, Sem refletirem no trabalho Que Deus tivera em me formar…
Mas nada perguntei a eles quanto a isso, Todos somos de Deus para a luz do serviço Tendo por privilégio o dom de trabalhar.
6 Minha copa era grande… Era um vestido Todo ele a vibrar, entretecido De folhas semelhantes a esmeraldas… Por isso mesmo, ante o verão candente, Alegrava-me ouvindo a voz de tanta gente Que me buscava o teto, assim como se busca A brandura da fonte Quando o sol nos ofusca, Lembrando águia de fogo Fugindo sem cessar ao pouso do horizonte!
7 Depois, o tempo veio…
Tudo parece haver levado!
Meu corpo agora é nodulado e feio, Mas creio em Deus e firmo-me de pé, Porque Deus certamente me deseja Para qualquer tarefa benfazeja… Talvez que este meu corpo feio e nodulado Possa servir de apoio certo e amigo Para algum pássaro cansado Que esteja ao desabrigo…
8 Não sei qual o destino a que o Céu me conduz, Se algum machado bronco Surgirá, de repente, a decepar-me o tronco, Para que eu volte ao Alto, em espiras de lume Na forma de calor ou de perfume Em alguma fogueira que me aguarde. E nem sei se serei aproveitada Em singela choupana Que me acolha, mais tarde, Para ajudar a nobre vida humana!
9 Nada sei do porvir, Sei que pertenço a Deus e que devo servir… O Homem que se cansara sem razão Levantou-se do chão, Fitou o mundo em torno!
Do verme ao firmamento e do lodo ao cascalho Tudo era vida e luz, regozijo e trabalho…
10 No pranto de emoção Que a alegria lhe dava ao coração, Exclamou para os Céus:
— Sê louvado, Senhor!…
Num lenho que julguei largado e semimorto, Deste-me nova fé, visão, auxílio, reconforto! Perdoa-me, Senhor, a rebeldia, Esquece todo o mal que fiz nos erros meus! E pelo doce amor Que esta árvore, a sós, entesoura e irradia, Obrigado, meu Deus!
Maria Dolores RETRATO DO TÉDIO.
Maria Dolores nos dá, nesse poema, não só o retrato da fé, mas também o retrato do tédio. Na pergunta 943 de O Livro dos Espíritos temos a resposta de que o tédio provém da ociosidade, da falta de fé e da saciedade. O homem saciado e ocioso não encontra beleza nem estímulos na vida. A falta de fé o leva ao desespero e à angústia que caracterizam o nosso tempo e sua árida filosofia. “O homem é uma paixão inútil”, afirma Sartre, o filósofo e o profeta do nada. O homem “velho, inútil e sozinho” que encontrou a árvore seca é o retrato do tédio e da náusea, da famosa náusea sartreana. Mas a árvore seca estava em pé. Continuava de galhos abertos no espaço, no mesmo gesto acolhedor do passado verdejante. E se não tinha mais frutos, podia ainda oferecer ao viandante o seu exemplo de firmeza e de fé. Todas as coisas falam. E se tivermos “ouvidos de ouvir”, como ensina o Evangelho, as pedras podem clamar ao nosso redor e as árvores secas podem transmitir-nos as suas mensagens. A velhice, a inutilidade, a solidão só existem para aqueles que se entregam ao desânimo, que subestimam as próprias forças. Como ensinava Léon Denis, cada fase da vida tem a sua finalidade no conjunto da existência. Se as forças físicas enfraquecem na velhice, as forças espirituais podem aumentar. Se o homem não tem mais ilusões, tem experiência e sabedoria. O jovem afoito, embriagado pela juventude, está sujeito a muitos erros e decepções. O velho experimentado e compreensivo será uma velha árvore que pode acolhe-lo e despertá-lo para a compreensão real da vida, apontando-lhe o caminho seguro da fé à luz da razão. O tédio é a ferrugem da alma. Só corrói as almas que se abandonam a si mesmas, que se atiram por covardia nos montes de ferro-velho. Irmão Saulo