A caminho da luz · Emmanuel · Chico Xavier

Capítulo 16 de 28

A Evolução do Cristianismo

1. Penosos compromissos romanos.

1 Debalde tentaram as forças espirituais o aproveitamento dos romanos na direção suprema do mundo. Todos os recursos possíveis foram prodigalizados inutilmente à cidade imperial.

2 A canalização de consideráveis riquezas materiais, possibilitando a consolidação de um Estado único no planeta, não fora esquecida, ao lado de todas as providências que se faziam necessárias, do ponto de vista moral.

3 Em vão, transplantara-se para Roma a extraordinária sabedoria ateniense e a colaboração de todas as experiências dos povos conquistados.

4 Os Espíritos encarnados não conseguiram a eliminação dos laços odiosos da vaidade e da ambição, sentindo-se traídos em suas energias mais profundas, contraindo débitos penosos, perante os tribunais da Justiça Divina.

5 A vinda do Cristo ao cenáculo obscuro do planeta, trazendo a mensagem luminosa da verdade e do amor, assinalara o período da maioridade espiritual da Humanidade.

6 Essa maioridade implicava direitos que, por sua vez, se fariam acompanhar do agravo de deveres e responsabilidades, para a solução de grandes problemas educativos do coração.

7 Se ao homem físico rasgavam-se os mais amplos horizontes nos domínios do progresso material, os Evangelhos vinham trazer ao homem espiritual um roteiro de novas atividades, educando-o convenientemente para as suas arrojadas conquistas de ciência e de liberdade, com vistas ao porvir.

8 O aproveitamento desse processo educativo deveria ser levado a efeito pela capital do mundo, de acordo com os desígnios do Plano Espiritual.

9 Pesadas forças da Treva, porém, aliaram-se às mais fortes tendências do homem terrestre, constantemente inclinado aos liames do mal que o prendiam à Terra, adstrito aos mais grosseiros instintos de conservação, 10 e, enquanto os Espíritos abnegados, do Alto, choram sobre os abusos de liberdade dos romanos, a cidade dos Césares embriaga-se cada vez mais no vinho do ódio e da ambição, contraindo dívidas penosas, entrelaçando os seus sentimentos com o ódio dos vencidos e dos humilhados, criando negras perspectivas para o longínquo porvir.

2. Culpas e resgates dolorosos do homem espiritual.

1 Ao coração misericordioso de Jesus chegam as preces dolorosas de todos os operários da sua bendita semeadura.

2 Seu olhar percuciente, todavia, penetrara o âmago das almas e não fora em vão que recomendara o crescimento do trigo e do joio nas mesmas leiras, somente a Ele competindo a separação, na época da ceifa.

3 A limitada liberdade de ação dos indivíduos e das coletividades é integralmente respeitada.

4 Cada qual é responsável pelos seus atos, recebendo de conformidade com as suas obras.

5 Foi por isso que Roma teve oportunidade de realizar os seus propósitos e desígnios políticos; mas a Justiça Divina acompanhou-lhe todos os passos, nos enormes desvios a que se conduziu, comprometendo para sempre o futuro do homem espiritual, que somente agora conhecerá um reajustamento nas amargurosas transições do século que passa.

6 Um laço pesado e tenebroso reuniu a cidade conquistadora aos povos que humilhara.

7 O ódio do verdugo e dos seus inimigos fundiu-se em séculos de provações e de lutas expiatórias, para demonstrar que Jesus é o fundamento da Verdade e só o amor é a sagrada finalidade da vida.

8 Foi por essa razão que o conquistador e os conquistados, unidos pelo ódio como calcetas algemados um ao outro nas galés da amargura, compareceram periodicamente, nos Espaços, ante a misericórdia suprema do Filho de Deus, prometendo a reparação e o resgate recíprocos, nos séculos do porvir, fundando a civilização ocidental, como abençoada oficina dos seus novos trabalhos no esforço da fraternidade e da regeneração.

9 A bondade do Mestre fez florescer cidades valorosas e progressistas, países cultos e fartos, onde as almas decaídas encontrassem todos os elementos de edificação e aprimoramento.

10 O homem físico continuou a linha ascensional de sua evolução nas conquistas e descobrimentos, mas o homem transcendente, a personalidade imortal, teria saído do oceano de lodo onde se mergulhou, voluntariamente, há dois milênios?

Respondam por nós as angustiosas expectativas da hora presente.

3. Os mártires.

1 Antes do movimento de propagação das ideias cristãs no seio da sociedade romana, já os prepostos de Jesus se preparavam para auxiliar os missionários da nova fé, conhecendo a reação dos patrícios em face dos postulados de fraternidade da nova doutrina.

2 As classes mais afortunadas não podiam tolerar semelhantes princípios de igualdade, quais os que preconizavam as lições do Nazareno, considerados como postulados de covardia moral, incompatíveis com a orgulhosa filosofia do Império, e é assim que vemos os cristãos sofrendo os martírios da primeira perseguição, iniciada no reinado de Nero, de tão dolorosas quão terríveis lembranças.

3 Nenhum instrumento de suplício foi esquecido na experimentação da fé e da constância daquelas almas resignadas e heroicas. O açoite, a cruz, o cavalete, as unhas de ferro, o fogo, os leões do circo, tudo foi lembrado para maior eficiência da perseguição aos seguidores do Carpinteiro de Nazaré.

4 Pedro e Paulo entregam a vida na palma dos martírios santificadores e de Nero a Diocleciano uma nuvem pesada, de sangue e de lágrimas, envolve a alma cristã, cheia de confiança na Providência Divina.

5 O próprio Marco Aurélio, cuja elevada estatura espiritual recebera do Alto a missão de paralisar semelhantes desatinos, não conseguiu deter a corrente de forças trevosas, mas o sangue dos cristãos era a seiva da vida lançada às divinas sementes do Cordeiro, e os seus sacrifícios foram bem os reflexos da amorosa vibração do ensinamento do Cristo, atravessando os séculos da Terra para ser compreendido e praticado nos milênios do porvir.

4. Os apologistas.

1 A doutrina cristã, todavia, encontrara nas perseguições os seus melhores recursos de propaganda e de expansão.

2 Seus princípios generosos encontravam guarida em todos os corações, seduzindo a consciência de todos os estudiosos de alma livre e sincera.

3 Observa-se a sua influência no segundo século, em quase todos os departamentos da atividade intelectual, com largos reflexos na legislação e nos costumes.

4 Tertuliano apresenta a sua apologia do Cristianismo, provocando admiração e respeito gerais.

5 Clemente de Alexandria e Orígenes surgem com a sua palavra autorizada, defendendo a filosofia cristã, e com eles levanta-se um verdadeiro exército de vozes que advogam a causa da verdade e da justiça, da redenção e do amor.

5. O jejum e a oração.

1 Os cristãos, contudo, não tiveram de início uma visão do campo de trabalho que se lhes apresentava.

2 Não atinaram que, se o jejum e a oração constituem uma grande virtude na soledade, mais elevada virtude representam quando levados a efeito no torvelinho das paixões desenfreadas, nas lutas regeneradoras, a fim de aproveitar aos que os contemplam.

3 Não compreenderam imediatamente que esses preceitos evangélicos, acima de tudo, significam sacrifício pelo próximo, perseverança no esforço redentor, serenidade no trabalho ativo, que corrige e edifica simultaneamente.

4 Retirando-se para a vida monástica, povoaram os desertos na suposição de que se redimiriam mais rapidamente para o Cordeiro.

5 Uma ânsia de fugir das cidades populosas fazia então vibrar todos os crentes, originando-se os erros da idade medieval, quando o homem supunha encontrar nos conventos as antecâmaras do Céu.

6 O Oriente, com os seus desertos numerosos e os seus lugares sagrados, afigura-se o caminho de todos os que desejam fugir dos antros das paixões. Só a grande montanha de Nítria chegou a possuir trinta mil anacoretas, exilados do mundo e dos seus prazeres desastrosos.

7 Entretanto, examinando essa decisão desaconselhável dos primeiros tempos, somos levados a recordar que os cristãos se haviam esquecido de que Jesus não desejava a morte do pecador.

6. Constantino.

1 As forças espirituais que acompanhavam e acompanham todos os movimentos do orbe, sob a égide de Jesus, procuram dispor os alicerces de novos acontecimentos, que devem preparar a sociedade romana para o resgate e para a provação.

2 A invasão dos povos considerados bárbaros é então entrevista.

Uma forte anarquia militar dificulta a solução dos problemas de ordem coletiva, elevando e abatendo imperadores de um dia para outro.

3 Sentindo a aproximação de grandes sucessos e antevendo a impossibilidade de manter a unidade imperial, Diocleciano organiza a Tetrarquia, ou governo de quatro soberanos, com quatro grandes capitais.

4 Retirando-se para Salona, exausto da tarefa governativa, ocorre a rebelião militar que aclama Augusto a Constantino, filho de Constâncio Cloro, contrariando as disposições dos dois Césares, sucessores de Diocleciano e Maximiano.

5 A luta se estabelece e Constantino vence Maxêncio às portas de Roma, penetrando a cidade, vitorioso, para ser recebido em triunfo. Junto dele, o Cristianismo ascende à tarefa do Estado, com o edito de Milão.

7. O Papado.

1 Desde a décima perseguição que o Cristianismo era considerado em Roma como doutrina morta, mas os prepostos do Mestre não descansavam, com o nobre fim de fazer valer os seus generosos princípios.

2 A fatalidade histórica reclamava a sua colaboração nos gabinetes da política do mundo e, ainda uma vez, a indigência dos homens não compreendeu a dádiva do Plano Espiritual, porque, logo depois da vitória, os bispos romanos solicitavam prerrogativas injustas sobre os seus humildes companheiros do episcopado.

3 O mesmo espírito de ambição e de imperialismo, que de longo tempo trabalhava o organismo do Império, dominou igualmente a igreja de Roma, que se arvorou em chefe e censor de todas as demais do planeta.

4 Cooperando com o Estado, faz sentir a força das suas determinações arbitrárias.

5 Trezentos anos lutaram os mensageiros do Cristo, procurando ampará-la no caminho do amor e da humildade, até que a deixaram enveredar pelas estradas da sombra, para o esforço de salvação e da experiência, 6 e, tão logo a abandonaram ao penoso trabalho de aperfeiçoar-se a si mesma, eis que o imperador Focas favorece a criação do Papado, no ano de 607.

7 A decisão imperial faculta aos bispos de Roma prerrogativas e direitos jamais justificados. Entronizam-se, mais uma vez, o orgulho e a ambição da cidade dos Césares.

8 Em 610, Focas é chamado ao Mundo dos Invisíveis, deixando no orbe a consolidação do Papado.

9 Dessa data em diante, ia começar um período de 1260 anos de amarguras e violências para a civilização que se fundava. Emmanuel