O Livro dos Espíritos · Allan Kardec

Capítulo 60 de 67

59 e 60.

[XIV]

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1 Passaríamos de leve pela objeção que fazem alguns céticos, a propósito das falhas ortográficas cometidas por certos Espíritos, se ela não desse margem a uma observação essencial.

2 A ortografia deles, cumpre dizê-lo, nem sempre é impecável; mas é preciso ter a razão muito estreita para se fazer disso objeto de crítica séria, dizendo que, uma vez que os Espíritos tudo sabem, devem saber ortografia.

3 Poderíamos opor-lhes inúmeros pecados desse gênero, cometidos por mais de um sábio da Terra, o que em nada lhes diminui o mérito.

4 Entretanto, há neste fato uma questão mais grave. Para os Espíritos, principalmente para os Espíritos superiores, a ideia é tudo, a forma nada é.

5 Libertos da matéria, sua linguagem é rápida como o pensamento, pois que são os próprios pensamentos que se comunicam sem intermediário.

6 Devem, pois, sentir-se muito pouco à vontade quando são obrigados, para se comunicarem conosco, a se servirem das formas longas e embaraçosas da linguagem humana e, sobretudo, a lutarem com a insuficiência e imperfeição dessa linguagem para exprimirem todas as ideias; é o que eles próprios declaram.

7 Além disso, é curioso observar os meios de que muitas vezes se servem para atenuarem esse inconveniente.

8 O mesmo se daria conosco, se tivéssemos de nos exprimir num idioma mais rico em palavras e expressões, e mais pobre em fraseados do que a nossa.

9 É o embaraço sentido pelo homem de gênio, que se impacienta com a lentidão da pena, sempre muito atrasada em relação ao seu pensamento.

10 É compreensível, diante disto, que os Espíritos liguem pouca importância à puerilidade da ortografia, sobretudo quando se trata de ensino importante.

11 Ademais, já não é maravilhoso que se exprimam indiferentemente em todas as línguas e as compreendam todas? Não se conclua daí, no entanto, que a correção convencional da linguagem lhes seja desconhecida, pois a observam quando necessário.

12 É assim, por exemplo, que a poesia por eles ditada desafiaria quase sempre a crítica do mais meticuloso purista, e isso a despeito da ignorância do médium. >>>